O perfil do câncer no Brasil vem passando por uma transformação silenciosa, porém significativa. Dados do Painel Oncologia, do DataSUS, revelam que o número de diagnósticos da doença entre pessoas de 18 a 50 anos cresceu 284% entre 2013 e 2024, chegando a 174,9 mil novos casos anuais. O avanço reforça um alerta importante, o câncer, historicamente associado à população idosa, passa a ser cada vez mais diagnosticado em jovens adultos.
Entre os tipos mais frequentes nessa faixa etária estão os tumores de mama, colorretal, fígado e colo do útero, cada um associado a fatores de risco específicos, muitos deles relacionados a hábitos de vida e à ausência de rastreamento adequado.
O câncer de mama é o mais comum entre mulheres jovens e, além de fatores hormonais, pode estar ligado a histórico familiar e predisposição genética. Já o câncer colorretal tem apresentado crescimento expressivo em adultos abaixo dos 50 anos, frequentemente relacionado a uma dieta pobre em fibras, sedentarismo e excesso de peso. O câncer de fígado também aparece entre os diagnósticos em idades mais precoces, associado ao consumo excessivo de álcool, obesidade e infecções virais crônicas, como hepatite B e C. Já o câncer de colo do útero ainda afeta milhares de mulheres, principalmente pela falta de rastreamento regular e pela baixa cobertura vacinal contra o HPV.
Segundo o oncologista Carlos Fruet, esse cenário reflete mudanças importantes no comportamento da população ao longo dos últimos anos. “Alimentação rica em ultraprocessados, sedentarismo, excesso de peso, consumo de álcool e tabagismo estão entre os principais fatores associados ao aumento dos casos em pessoas mais jovens. Muitos desses hábitos se instalam ainda na adolescência e permanecem ao longo da vida”, explica.
Em Ribeirão Preto, os dados locais reforçam a tendência observada em nível nacional. Informações da Secretaria Municipal da Saúde indicam que, em 2025, o número de mortes por câncer em pessoas com menos de 50 anos chegou a 111, o maior registrado na última década, evidenciando a antecipação dos diagnósticos da doença.
Para Carlos Fruet, o avanço dos casos entre jovens adultos amplia a urgência de ações preventivas e do fortalecimento de políticas públicas voltadas ao rastreamento. “Estimular hábitos saudáveis desde cedo, reduzir a exposição a fatores de risco e buscar avaliação médica diante de sinais persistentes são medidas fundamentais. O diagnóstico precoce continua sendo um dos principais aliados para aumentar as chances de cura e reduzir o impacto da doença”, conclui.
Uso de vapes preocupa especialistas
Outro fator que passou a integrar o radar da oncologia é o uso de cigarros eletrônicos. Dados do Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) indicam que o consumo de vapes é maior entre adolescentes de 14 a 17 anos do que entre adultos. De acordo com a pesquisa, 8,7% dos adolescentes relataram uso no último ano, frente a 5,4% entre adultos e 5,6% na população geral. O estudo foi conduzido pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Ipsos.
“Enquanto no cigarro tradicional a dependência pode se estabelecer em cerca de três semanas, no vape ela pode surgir em apenas cinco dias, já que a absorção da nicotina é mais rápida e vai diretamente ao cérebro”, alerta Fruet. Segundo o oncologista, muitos desses produtos são direcionados ao público jovem, com sabores adocicados e apresentações atrativas. “Muitos começam pelo cigarro eletrônico, tornam-se dependentes e depois passam a consumir o que estiver disponível. Esse movimento ajuda a explicar, inclusive, o aumento recente do tabagismo em algumas faixas etárias”, completa.

Deixe um comentário