Mulheres que lutam… Mulheres que vencem

“Dizem que a mulher é o sexo frágil, mas que mentira absurda…” Assim começa a letra de uma das músicas mais conhecidas do “Tremendão” Erasmo Carlos. De fato, é uma grande mentira.

Não podemos subestimar um ser que passa parte do dia tomando conta de filhos dos outros e em casa tem que dar conta dos cuidados com os próprios filhos, marido e, quando não tem nem filho e nem marido, mesmo assim se divide em dois ou mais empregos e ainda encontra tempo para lutar. Não que o que ela faça durante o dia, da hora que acorda até a hora que vai dormir, não seja uma luta. Mas vamos falar de lutar no sentido literal da palavra: lutar boxe.

Essa rotina da qual falamos é um dos pontos comuns entre duas serranenses, a dona de casa e monitora de creche Carla Uzuelli de 35 anos e Paula Sertório, professora de educação infantil, de 27 anos. Elas dedicam parte do tempo ao treinamento de boxe, um esporte considerado um dos mais violentos do mundo e para muitas pessoas, uma prática que está diretamente relacionada à masculinidade. Ambas acabam de vencer um campeonato realizado no último dia 28 de outubro e que já é tradição em Ribeirão Preto. O “Beer Fight Music,” promovido pelo Bar e Cervejaria Invicta, acaba de promover a sua segunda edição. As lutas contaram com a chancela da Federação de Boxe do Estado de São Paulo (Fabesp).

A Carla foi campeã na categoria Casado até 68 kg e a Paula ganhou o cinturão de primeiro lugar na categoria até 57 kg. Essa foi a primeira vez que a Carla participou de um campeonato. Até então ela frequentava a academia para treinar Muay thai e boxe com o objetivo de emagrecer, alcançar um bom condicionamento físico e eliminar o estresse e a ansiedade.

Já são seis anos de uma rotina esportiva, mas nos últimos três meses a dedicação foi exclusiva ao treinamento de boxe, “Parei com o Muay thai e passei a me dedicar mais ao boxe, já pensando na competição”, contou Carla, que representou a equipe da academia Art’s Combat, de Serrana.

A Paula é mais experiente quando se fala em competição. “A primeira vez em que participei de um campeonato de boxe, não venci. Na verdade, eu perdi para mim mesma,” conta a atleta. “Eu bati tanto na minha adversária, que fiquei exausta e não consegui finalizar”, explica. “No ano passado eu competi na primeira edição do Beer Fight Music e, ao contrário da minha experiência no outro campeonato, foquei mais na técnica e isso deu resultado porque consegui vencer. E agora, na segunda edição do campeonato promovido pelo Bar e Cervejaria Invicta, eu venci novamente e conquistei o cinturão de campeã da categoria na qual participei,” conta.

Paula participou da competição representando a equipe da academia RD Boxe, de Ribeirão Preto.

Carla Uzuelli

Há seis anos, a funcionária pública Carla Uzuelli resolveu entrar na academia para praticar Muay thai e boxe. O objetivo era encontrar uma atividade física que proporcionasse melhoria no condicionamento físico, ajudasse a diminuir o estresse e a ansiedade e, de quebra, fosse eficiente para emagrecer.

Na sua rotina diária, ela acorda as 5 horas da manhã, vai para a academia onde treina musculação e depois vai para a creche onde trabalha como monitora no período da manhã. A tarde divide suas tarefas entre auxiliar o marido na empresa da família, cuidar da casa e dos filhos e treinar boxe. “Os últimos três meses foram de muito sacrifício no preparo para o campeonato, mas valeu a pena. A experiência foi incrível”, comentou a atleta.

Carla confessa que nunca teve vontade de competir, mas a curiosidade em saber como se sairia em uma competição incentivou sua decisão em participar do Beer Fight Music.

A princípio, seu primeiro desafio foi perder peso em um prazo muito curto e sem comprometer a saúde. “Com o apoio do meu marido, que sempre me incentivou desde o início, ficou mais fácil, ” conta.

Em seguida veio a decisão de deixar de lado o Muay thai, esporte pelo qual é apaixonada, se dedicando exclusivamente ao boxe. A atleta diz que também adotou novos hábitos alimentares, como por exemplo, deixou de beber álcool, refrigerante, comer doce e passou a fazer acompanhamento com uma nutricionista. Além disso, deixou de lado a musculação. No dia da luta, ela estava com 67 kg; 6,5kg a menos do seu peso normal.

Paula Sertório

Com 27 anos, a professora de educação infantil é solteira e nem por isso a sua escolha pela competição no boxe tem sido mais tranquila. “Meu pai não opina, nem a favor e nem contra, mas minha mãe fica muito preocupada, não só com a minha integridade física, mas também com a das minhas adversárias”, conta.

Pela manhã, a campeão da 2º edição do Beer Fight Music categoria até 57 kg, dá aula em uma escola particular de Ribeirão Preto e a tarde ensina alunos de uma outra escola particular em Serrana.

Paula treina desde o final de 2020. “No início foi para emagrecer e me distrair”, conta a atleta. “Eu frequentava a academia duas vezes na semana. Depois fui gostando e passei a me dedicar mais,” explica Paula, que começou treinando Muay thai e boxe em uma academia de Serrana. Depois, passou a treinar em uma outra academia em Ribeirão Preto, já que trabalhava lá e isso facilitava sua dedicação ao esporte. Algum tempo depois, seguindo conselho do treinador, Paula deixou o Muay thai de lado e passou a se dedicar exclusivamente ao boxe.

Paula conta que recentemente seus colegas de trabalho descobriram que ela era lutadora de boxe e ficaram surpresos, afinal, uma garota com 57 kg não combina com a visão geral que as pessoas têm de que, para ser uma campeã em luta de contato é necessário músculos enormes e cara de mau, o que contrasta com as características físicas da atleta. “No boxe ou em qualquer outra atividade física, a técnica é mais importante do que a força”, finaliza.

A força feminina no boxe

Tanto Carla quanto Paula são referências quando se fala em motivação, determinação e força feminina. As duas driblam os conceitos e preconceitos que a sociedade impõe sobre o que é atividade de homem e de mulher. Elas mostram que no esporte não há motivos para esse tipo de rótulo.

Houve um tempo em que atletas femininas precisaram enfrentar outras batalhas, dessa vez, nos tribunais para conquistar o direito de praticar esportes considerados exclusivamente masculinos, como o futebol, a luta e diversos outras atividades esportivas.

Em 14 de abril de 1941, Getúlio Vargas assinou o Decreto de Lei Federal n° 3.199 em que constava o artigo 54, declarando que as mulheres estavam proibidas de praticar esportes que fossem “incompatíveis com as condições de sua natureza”. O Decreto obedecia a ideia de que a mulher deveria ser “devolvida” ao ambiente doméstico e não, ser incentivada a “alçar voos” em ambientes públicos.

Esse Decreto não está mais em vigor, mas as atividades esportivas ainda são rotuladas por gênero.

Carla e Paula são duas mulheres vaidosas. Mas não conseguem evitar as marcas roxas pelo corpo, consequências dos treinos. “Essas marcas a gente resolve com maquiagem,” explicam. Mas tem marcas piores, que são as provocadas pelos comentários negativos de gente que não conhece o esporte ou não aceitam o sucesso das lutadoras, as chamadas marcas da inveja. Essas elas ignoram e rebatem com os resultados das competições.

“A mulher pode ser o que ela quiser”, finalizam as duas que têm a certeza de que são exemplos não só para as mulheres, mas para qualquer pessoa tem um objetivo na vida.

A atleta Paula treina na academia RD Boxe de Ribeirão Preto. Carla treina na academia Art’s Combat de Serrana. As duas também treinam na acadenia Hardcore, em Serrana.


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