Rita Von Hunty na FIL: “A língua é o povo e a escrita é uma possibilidade de classe”

A 22ªFIL – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto registrou nesta segunda-feira (14) seu segundo recorde de público em três dias de evento. A sala principal do Theatro Pedro II teve lotação máxima de público para a palestra de Rita Von Hunty, que marcou a estreia do Debatendo Palavras, atividade inserida este ano na programação.

Persona drag do ator e professor Guilherme Terreri, do canal Tempero Drag, Rita Von Hunty abordou a proposta da FIL, contextualizando a disputa reivindicatória pelo significado da palavra ideologia por diferentes correntes de pensamento, e colocando na roda conceitos sobre língua, povo e cultura. O mecanismo de produção de ideias também foi inserido no roteiro. “A língua é não apenas forma. Ela carrega um mapa de significado e de valor dentro de um espaço de tempo, representando a experiência cultural de um povo. Em síntese, a língua é o povo”, disse Von Hunty.

A palestrante também destrinchou a palavra ideologia como processo normalizador de pensamentos definidos como bom para todos, indistintamente. “A produção das ideias depende da condição de materialidade para serem produzidas. Por isso, as ideias dominantes são sempre as ideias da classe dominante. A escrita é uma possibilidade de classe”, enfatizou a professora, destacando a importância do amplo acesso à educação. “A luta pela democracia educacional é revolucionária porque reorganiza a forma como pensamos”, finalizou.

Revoluções começam individuais

O terceiro dia da FIL trouxe também a intervenção artística “Também guardamos pedras aqui”, realizada no auditório Meira Júnior, que destacou o encontro de uma mulher de vida tranquila com o imponderável da vida. O trabalho tem como base o livro homônimo da atriz e poeta ribeirãopretana Luiza Romão (autora local homenageada nesta edição da FIL), que dividiu o palco com a artista Eme Barbassa, de quem foi aluna de teatro. “A arte, o teatro, a literatura salvam vidas”, falou Barbassa.

Na Tenda Sesc, o encontro entre o público e o escritor Sérgio Vaz foi outro destaque da agenda. Na conversa batizada de “Fala da palavra: escritas e oralidades de quebrada”, o poeta e articulador cultural falou sobre o lançamento de “Flores da Batalha”, seu quarto livro, e respondeu a perguntas sobre a carreira literária, o movimento Cooperifa – criado por ele -, os saraus que realiza em regiões periféricas da cidade de São Paulo e sobre a importância e força que a poesia tem especialmente junto a adolescentes. “Quando era jovem, ouvia que poesia não virava e não me traria um bom futuro. Hoje, vivemos um momento único e especial na literatura,      com os slams resgatando poemas. Revolucionário é quem quer mudar o mundo e tem coragem de começar por si próprio”, comentou Vaz.

Conhecer para respeitar

A roda de conversa “Gêneros e Diversidades”, realizada no Espaço Favela (CUFA), reuniu Fábio de Jesus, Marina Borges, Marina Campanha, Regina Brito e Rita Pantoni (representantes de diferentes movimentos que abordam questões ligadas à população LGBTQIAP+),  para uma conversa que enfatizou a importância do conhecimento para promoção de relações mais respeitosas com as diferenças em diferentes recortes sociais. “Somente a partir da educação e do conhecimento com linguagem acessível será possível romper as cargas de preconceitos, quebrar estereótipos e promover respeito sem ódio”, salientou Marina Campanha. A diversidade não respeitada na área da saúde foi abordada por Regina Brito, com recorte específico em torno da mulher negra nesse contexto. A advogada Rita Pantoni, especializada na área imobiliária, falou sobre as dificuldades e os direitos de pessoas LGBTQIAP+ em relação à moradia e as burocracias enfrentadas nesse processo.

Diferenças também foi tema da roda de conversa “Qual é a importância em vivermos a diversidade?”, no estande Diversidade, com mediação da psicóloga Karla Toniolo. “Ser diferente é ser diverso. Olhando as pessoas que transitam pela FIL, percebemos essa diversidade da nossa sociedade. O problema que temos é a aceitação dessa diversidade”, explicou Karla.

Outras trocas

A segunda-feira na FIL ainda teve palestra sobre abandono de animais e adoção responsável, com a advogada Viviane Alexandre, ex-chefe da Divisão de Bem-Estar Animal de Ribeirão Preto. Ela chamou atenção para o planejamento antes de ter um animal em casa e para evitar abandono futuro. Na mesa redonda “Literatura: antena e interface”, Fernanda Ripamonte, Waldomiro Peixoto, Maria Cecília Figueiredo e Maria Conceição conversaram com escritores sobre a interferência da literatura na vida dos leitores. “A cultura é fundamental porque está ligada à essência de um povo. Os artistas são os porta-vozes da cultura e têm percepção mais apurada da alma humana. Por isso, ele é a antena de uma sociedade”, destacou Waldomiro Peixoto.

A cultura dos povos originários do Brasil foi destaque na Tenda Sesc, com a atividade “Kuaru Açu em canto, contos e poesias”, com a voz de Márcia Kambeba e a percussão de Rafael Barros. Por meio de música e poesia, eles apresentaram às crianças diversas histórias e informações sobre a cultura indígena.

A Sessão Premiados trouxe a autora “Assim Na Terra Como Embaixo da Terra”, e roteirista, Ana Paula Maia, que abordou a carreira do escritor no Brasil. “Dá para viver só de literatura? Não, só de literatura você vive no entorno, onde as coisas acontecem”, disse.

A autora adiantou ainda sobre seu livro “Enterre Seus Mortos”, obra com uma abordagem de novela policial, faroeste de horror e romance filosófico, que virou um filme original do Globoplay. A produção será dirigida por Marco Dutra, que também assina o roteiro com Caetano Gotardo e terá como um dos atores Selton Mello, interpretando Edgar Wilson, um sujeito soturno que trabalha como removedor de animais atropelados em estradas, sob o comando de Nete (Marjorie Estiano), sua chefe e namorada. “O filme está sendo gravado e só estará no ar no ano que vem”, disse.

A 22ªFIL – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto segue até o próximo domingo (20), com programação para públicos de todas as idades, diariamente de 8h30 às 20h. A agenda completa está disponível no endereço www.fundacaodolivroeleiturarp.com.

Sobre a FIL

A 22ª edição da FIL – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto teve início em 12 de agosto e vai até o próximo dia 20. Traz como tema central a proposição “Entre os extremos, as dualidades: a literatura como elo”. O evento acontece de forma presencial em 16 locais simultâneos e abertos ao público (a maioria no centro da cidade), além de dois espaços educacionais para atividades exclusivas e pré-agendadas. 

Para essa edição, os homenageados da FIL são: Gilberto Gil (autor), Gilberto Dimenstein (autor educação), Luiza Romão (autora local), Stella Maris Rezende (autora infantojuvenil), Danilo Santos de Miranda (patrono) e Madelaine Pires (professora).

Todas as atividades são gratuitas e abertas à população, como salões de ideias, conferências, palestras, mesas-redondas, oficinas, shows, espetáculos infantis, performances, contações de histórias, saraus, projetos educacionais, entre outras.

Realização 
Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas, Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, Usina Alta Mogiana, GS Inima Ambient e Fundação do Livro e Leitura apresentam a 22ª FIL – Feira Internacional do Livro de RibeirãoPreto.

Patrocínio Diamante
Usina Alta Mogiana e GS Inima Ambient.

Patrocínio Ouro
GasBrasiliano, Savegnago e Itacuã.

Patrocínio Prata
Passalacqua, Ourofino Agrociência, Tracan e RibeirãoShopping.

Patrocínio Bronze
Supermercados Gricki e Santa Helena.

Patrocínio
Acirp, Caldema Equipamentos Industriais, Interunion, Riberfoods, Santiago e Cintra Geotecnologias, Suprir e Vantage GeoAgri.Instituição Cultural
Sesc

Apoio
Fundação Dom Pedro II – Theatro Pedro II, Biblioteca Sinhá Junqueira, Centro Cultural Palace, Instituto do Livro, CUFA, A Fábrica, Teatro Municipal de Ribeirão Preto, Dauriti Distribuidora, Apis Flora, Stéfani Purificadores, Molyplast Brasil, Passalacqua Tech, Cenourão, Santa Emília, Coderp, Transerp, Guarda Civil Municipal, Polícia Militar, Secretaria da Cultura e Turismo, Secretaria da Educação e Secretaria de Meio Ambiente e Secretaria de Infraestrutura da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto.

Apoio Cultural
Colégio Marista, DE Região de Ribeirão Preto, ETEC – José Martimiano da Silva, Fundação Educandário Cel. Quito Junqueira, SESI, Centro Universitário Barão de Mauá, Centro Universitário Moura Lacerda, Unaerp, Adevirp – Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto, Associação de Surdos de Ribeirão Preto, CAEERP, Fundação FADA, Fundação Panda, Ribdown – Associação  Síndrome de Down de Ribeirão Preto, SOMAR, ONG Arco Íris, Alma – Academia Livre de Música e Artes, Convention & Visitors Bureau – Ribeirão Preto e região, Monreale Hotels, NW3 Comunicação, Grupo Utam, Painew, Verbo Nostro Comunicação Planejada e IPCCIC – Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais.    

Sobre a Fundação
A Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto é uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos, responsável pela realização da Feira Internacional do Livro da cidade.  Com uma trajetória sólida, projeção nacional e mais recentemente internacional, a entidade ganhou experiência e, atualmente, além da feira, realiza muitos outros projetos ligados ao universo do livro e da leitura, com calendário de atividades durante todo o ano. A Fundação do Livro e Leitura se mantém com o apoio de mantenedores e patrocinadores, com recursos diretos e advindos das leis de incentivo, em especial do Pronac e do ProAc.Mais informações:
www.fundacaodolivroeleiturarp.com
Instagram: @fundacaolivrorp
Facebook: @fundacaodolivroeleiturarp
YouTube: /FeiraDoLivroRibeirao
Twitter: @FundacaoLivroRP


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