Alaf começou fazendo as próprias tranças e hoje dá cursos para novos profissionais

Em geral, as pessoas negras possuem uma relação com seus cabelos que vai além da estética. O simbolismo tem uma proximidade com a valorização dos cabelos crespos e os penteados que exaltam os resultados da sua transformação, assemelhando mais a uma obra de arte do que a uma simples busca pela beleza. Nesse processo de cuidados capilares, a figura de um profissional se destaca: o trancista.

Em Serrana, Alaf Aparecido Pereira de Assis, 30 anos, há 5 trabalha atendendo homens, mulheres e crianças que querem dar ao visual um toque que, na maioria dos casos, remete à sua ancestralidade. Na maioria, porque segundo ele, muitas pessoas de pele branca também o procuram para fazer tranças. “Apesar de ser um penteado baseado na cultura africana, as tranças viraram moda também entre as pessoas brancas, o que eu acho muito bacana pois não deixa de ser uma forma de combate ao racismo estrutural, presente na sociedade e que interfere na sua autoestima, segurança e identidade,” explica Alaf. “Isso reforça o potencial de beleza da pessoa negra, a ponto de seu penteado ser copiado pelas pessoas de pele clara”, conclui.

Alef fez suas primeiras tranças no próprio cabelo. Depois passou a usar a própria mãe, as irmãs e até a avó como modelos para treinamento e aprendizado. Quando achou que já estava dominando bem a técnica, começou postar nas redes sociais, recebendo muitos elogios.

“Um dia, alguém me disse que eu poderia ganhar dinheiro com tranças. Então eu resolvi tentar e no início atendia as pessoas na minha casa,” conta Alef. Mas o dinheiro não veio na quantidade que Alef esperava e, com a esposa grávida do segundo filho, ele teve que buscar outro emprego e foi trabalhar em uma loja de conveniências em Ribeirão Preto. “Algum tempo depois uma amiga me chamou para trabalhar em seu salão, em Ribeirão Preto”, conta. “Lá eu fiquei por um ano e depois voltei a atender os clientes na garagem de casa,” explica. Nessa época a divulgação boca a boca foi fundamental para que as pessoas passassem a conhece-lo. O apoio da esposa também foi muito importante, segundo Alef. “Ela trabalha fora e desde sempre me ajudou a manter o salão até que eu formasse uma carteira boa de clientes,” conta.

Alef conta que, em média um procedimento dura 8 horas, tempo suficiente para se estabelecer um vínculo de amizade e parceria com o cliente. “Muitas vezes a gente faz o papel de psicólogo, confidente e conselheiro, pois o cliente chega e em pouco tempo já começa a falar sobre seus problemas pessoais. Quando vou perceber, já estou dando conselhos e notando a diferença entre o astral que a pessoa apresentava quando chegou no salão e o que carrega consigo quando vai embora,” conta.

O maior movimento no salão, segundo Alef, acontece em época de Carnaval e no final do ano.

A transição capilar é um dos motivadores de muitas mulheres recorrerem as tranças. O processo de transição capilar afeta muito a autoestima das mulheres, sobretudo as negras, porque o cabelo fica sem forma definida por conta da falta da química e as tranças entram como suporte neste momento.

O trancista diz trabalhar apenas com cabelos orgânicos, feitos a partir de algodão e seda e que não passam por processos químicos agressivos, priorizando a pureza e a simplicidade. “A ausência de produtos químicos agressivos garante um contato suave com o couro cabeludo, sendo uma escolha perfeita para pessoas com pele sensível ou alergia, evitando o surgimento de problemas como a famosa dermatite de contato, que deriva no enfraquecimento e quebra dos fios,” explica Alef.

A trança pode ficar de dois a três meses, se for bem cuidada. Após esse tempo, é necessário fazer a manutenção, porém a maioria dos clientes preferem fazer novas tranças.

O trancista explica que em crianças com idade a partir dos 4 anos, já pode fazer trança.

“Se hoje eu me realizo com a minha profissão, eu devo em parte à minha esposa que sempre me apoiou e em especial a minha mãe Solange Aparecida Pereira, minha primeira incentivadora”, finalizou.

Cursos para novos trancistas

Sentindo a necessidade de formação de novos trancistas, uma vez que o mercado tem crescido e na sua opinião é preciso pensar em criar novas oportunidades profissionais para quem quer trabalhar na área, Alaf resolveu montar um curso onde, em quatro aulas, sendo uma por semana, o aluno já sai preparado para trabalhar, seja por conta ou em algum salão especializado.

O material de estudo já vem embutido no valor do curso e as aulas são individuais.

16 99243-4371 @alaf_trancista_studio

O significado das tranças

As tranças de cultura africana, carregam uma bagagem ancestral muito forte, já foram utilizadas como ferramenta de sobrevivência durante o período da escravidão, e hoje em dia ainda continuam trazendo o significado de sobrevivência, mas como forma de economia para muitas pessoas negras. Esse tipo de penteado, além dos significados que carregam consigo, para as mulheres negras são forma de proteção e aceitação diante o impacto direto com o racismo estrutural presente na sociedade, interferindo na sua autoestima, segurança e identidade.


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