Ela dirige caminhão de cana!

Sabe aquela história de que “mulher só pode pilotar fogão ou tanque de lavar roupas”? Pois é, para tristeza e decepção dos machistas de plantão, ficou para trás faz muito tempo.

A mulher de hoje não só pode dirigir automóveis, mas também já ganhou o mercado de trabalho nas empresas de transportes pesados, dirigindo caminhões e carretas, cortando o país de norte a sul, deixando muitos marmanjos “comendo poeira”.

Agora imagina uma mulher dirigindo um caminhão carregado de cana, daqueles conjugados com dois ou três gaiolas, cruzando carreadores no meio da terra, enfrentando o asfalto até uma usina de açúcar e álcool. Não consegue imaginar? Pois bem, elas existem e apesar de ser um trabalho bruto e que em nada combina com o jeito delicado de uma mulher, elas são muito elogiadas pelos patrões ao mesmo tempo em que são invejadas e até mesmo sacaneadas e perseguidas pela maioria dos colegas de sexo masculino. Até apontar o caminho errado com a intenção de atrapalhar o trabalho da colega, os “machões” fazem, sem nenhum constrangimento.

Mulher, mãe e motorista

Joice da Silva Tiago tem 35 anos, é divorciada e mãe de um casal de adolescentes: Fernanda (11 anos) e Joaquim (12 anos).

Joice tem uma rotina que começa às 3 horas da madrugada, quando ela acorda para preparar o café e a sua própria marmita. Às 4 horas da manhã ela já está no ponto, a espera da condução que vai leva-la até a Fazenda São José, antiga Santa Maria, na divisa entre Serrana e Ribeirão Preto.

Quando chega na fazenda, sua principal ferramenta de trabalho está a espera para mais um dia de atividades. É a bordo de um caminhão Volvo FMX 540 que ela vai passas as próximas 12 ou até 14 horas trabalhando.

Antes desse emprego, a Joice já foi socorrista e seu trabalho era exclusivamente resgatar vítimas de acidentes nas estradas. Depois foi trabalhar como tratorista em uma empresa de Ribeirão Preto. O trabalho dela era fazer o transbordo da cana que estava sendo cortada em uma área de difícil acesso, para um pátio mais seguro, onde o produto era transferido para os caminhões. “Foi uma oportunidade que me deixou muito feliz, mas mesmo assim o meu sonho era o de dirigir caminhão”, conta. “Mas não era qualquer caminhão e sim um de transporte de cana,” explica.

A paixão pelo caminhão de cana nasceu junto com ela, como Joice explica. “Meu pai, meu irmão e meu tio são motoristas de caminhão que transporta cana. Meu atual marido é motorista de caminhão de cana”, conta. Segundo ela, o assunto mais falado em reuniões familiares é sobre caminhão.

Joice conta que seus pais nunca aprovaram sua profissão. Para eles, ela tinha que estudar e seguir uma carreira acadêmica. Mas o seu coração sempre falou mais alto. E assim ela voltou para a auto escola com o objetivo de mudar a categoria da carteira de habilitação e assim poder dar o primeiro passo ao rumo do seu sonho, que era ser motorista de caminhão de cana.

As negativas foram muito marcantes na vida da Joice, mas não a ponto de faze-la desistir do seu sonho. Em apenas três dias, Joice contou 13 recusas por parte de empresas, à sua proposta de trabalhar como motorista de caminhão.

13 negativas e 1 positiva

“Um dia eu estava indo para Ribeirão Preto, para participar de uma entrevista de emprego. Quando passei na frente da entrada da Fazenda São José, resolvi entrar em deixar um currículo,” conta. “A moça da recepção me alertou que não tinha vaga para o administrativo e eu respondi que o que eu queria era um emprego de motorista de caminhão. Ela estranhou e me encaminhou para o gerente agrícola. A primeira pergunta que ele fez foi se eu tinha experiência. Eu disse que não tinha, mas que coragem tinha de sobra. Ele então me contratou,” conta.

A confiança do gerente agrícola na capacidade de aprender da nova motorista não foi equivocada. No primeiro mês de safra, Joice foi destaque pelo seu desempenho entre os demais colegas.

Dirigir um caminhão não é o único desafio para uma mulher que poderia estar fazendo qualquer outra coisa mais comum aos olhos da maioria das pessoas. Ela tem que desenvolver atividades que usam força e conhecimentos que vão além de dirigir, seja na terra ou no asfalto. Como qualquer motorista profissional, ela deve estar preparada, por exemplo, para resolver problemas elétricos e mecânicos do caminhão, além de procedimentos padrões do dia a dia, como cobrir o veículo com lonas;

Chegou o fim da sua primeira safra transportando cana. Foram seis meses de desafios e de superações. “Já estou triste por pensar que daqui uns dias vou ter que mudar minha rotina e esperar até a próxima safra para fazer aquilo que eu mais amo na vida, que é dirigir caminhão de cana”, confidencia Joice.

Com o final da safra, Joice deve voltar a trabalhar com a produção de quentinhas, atividade que já faz há alguns anos. “Vou fazer e vender marmitas até chegar a próxima safra e se tudo der certo, volto a fazer o que mais amo na vida, que é dirigir caminhão de cana”, conta. “É isso que eu quero fazer por toda a minha vida. E aconselho a qualquer mulher que têm um sonho e que não o realiza por medo de não dar certo ou por pressão externa, que esqueçam qualquer crítica ou palavra negativa e corra atrás de ser feliz. Somos donos do nosso destino e só nós podemos saber o que é importante para a nossa felicidade,” finaliza.


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